quinta-feira, 25 de julho de 2013

Você jura que está me mostrando a letra dessa música?

“Entrar na sua linha do tempo e ficar vendo seus posts é um dos meus passatempos favoritos, nesse mundo online onde tudo é Clarice Del rey e Lana Falcão. Faz um blog! Ou é muito mainstream?!”
É com essa frase inspiradora de Zadorinha, que eu venho fazer a coisa mais perigosa que se há de fazer na face da Terra. Criticar música.

Criticar música é algo muito perigoso, pois vale lembrar a máxima “gosto é gosto”.
Exponho meus preconceitos injustificados de entrada, Chico Buarque, não consigo gostar de Chico Buarque; Caetano tem fases boas e fases tenebrosa, chegando ao ápice de regravar Nirvana, banda cujo frontman me passa uma depressão tão profunda quanto Lana. Não é este tipo de coisa que quero fazer aqui no momento. Acho que deveria reinar um consenso absoluto de cada um pegar seu gosto e enfiar no cu, pois seu gosto se impõe sobre o meu a todo momento! Você coloca seu carro em frente a minha casa, você coloca o som alto, você não usa fone de ouvido no ônibus! Então, criticar música é logo, acima de tudo, criticar a falta de respeito com o ouvido alheio (alheio, para as mentes mais desavisadas é o que não é seu, funk no ouvido alheio deveria ser considerado assédio, pois toca uma parte do corpo de outra pessoa, sem o consentimento dela). Logo, como somos obrigados a lidar com o gosto extremamente diversificado das pessoas, criticar música é, em segundo lugar, criticar a massa uniforme de sonoridade a qual somos expostos todos os dias. Não é meu objetivo julgar que rock é melhor que funk, eu não sou A Razão. Dá-se conta agora de que ambos os defensores dos estilos aqui são equivalentemente chatos pra caralho. Não é meu intuito menosprezar uma pessoa que não está ouvindo Beethoven neste momento! Porque eu mesmo não gostaria de estar ouvindo Beethoven, ou Bach, ou Chopin neste momento, pelo simples fato de que prefiro Vivaldi e imensamente mais Mozart! Bem, quando eu sinto esta pena das pessoas, eu, como herói, devo, claramente nos diz o bom senso, colocar Queen of the Night no volume máximo, para que os vizinhos, OUÇAM MOZART! (e sim, eu faço isso, em algumas culturas se chama Vendetta, vingança, dado que eles me impõem sertanejo, funk e Avril Lavigne em domingos em que eu nem acordei ainda, eu queria ter silêncio, nem as minhas próprias músicas eu queria ouvir!)
Eis que diante de toda esta mediocridade musical que nos impõem, surge na aceitável MPB, uma baixa ralé, em um modelo obviamente americano, de meninotas meio bobotontas, meio menina moça, selelepes, com músicas com um tom moderado de humor, multi instrumentistas, que fazem coisas muito fofas com um violão,um banjo, um cavaquinho, um ukelelê, um berinbal, uma arpa de eslasticos e caixa de sapatos, uma vasoura com fios de nilon, todo e qualquer instrumento de cordas popular nas mãos.

Claro, há pouco tempo conhecemos o deslumbre Malu Magalhães, perfeito exemplo, que é fã de Johnny Cash e Bob Dylan, todas essas meninotas querem ser Bob Dylan, mas acontece, que Bob Dylan... já vem a ser Bob Dylan, desde de que ele nasceu. É a mesma coisa que comprar um livro do Eike Batista, pensando que você vai ser Eike Batista. As pessoas poderiam se contentar em ouvir Cash e Dylan de uma vez, que já tem algumas músicas chatérrimas por sinal, não era preciso mais. Mas não. Elas ouvem Malu Magalhães, que em perfeita ilustração da sua obra tem aquela música Xylophones, todas essa meninas pra mim são como uma criança autista tocando xilofone, no mais exuberante tédio que o ouvido pode concatenar! Então surge um paralelo mais deprimente ainda lá fora a ser seguido. Uma espécie de moça mais moça, não meninota, com vestidos longos, cara de dona de casa cheia de lítio, uma mulher cujo psiquiatra entope de antidepressivos e estabilizadores de humor, perdida em sua zumbilência ela gira em torno de si mesma, e resmunga versos depressivos a serem compartilhados nas redes sociais. Não nos bastasse Mallu Magalhães ter se tornado esta mulher, do dia pra noite, os enlatados nos deram Lana Del Rey também. Coincidência?

E não nos bastasse Mallu e Tiê, que só sabe dançar com você, ganhamos Clarice. Eu, que já não achava que se possa ficar velha e louca aos vinte, que já não achava que neguinho nenhum sacava a minha esquizofrenia, tive que me encontrar decidamente negando que a sua loucura seja um pouco igual a minha! (percebam que riqueza lírica! Que coincidência em tratar de patologias psicológicas inerentes a todo ser humano! Que brilhantismo!)
Nossa música, que pode por diversas vezes se orgulhar de tratar com recursos lingüísticos muito mais superiores para suas letras, que muitas músicas estrangeiras, que consegue, por vezes, usar de metáforas muito mais ricas, que o inglês (não, o português não é superior às outras linguas pra expressão de sentimentos, é você que é burro que diz isso, você que não é bi, tri, quadrilingue, você que malemá sabe português que usa este argumento, eu disse POR VEZES), para frisar a fascinação por um olhar, que pode dizer além de look into those angel eyes, that shinning bright and deep eyes, que este olhos são como uma carícia donde a alma encontra seu mais profundo recôndito, onde, longe, se colocaria ontem e hoje, e sempre, carente, olhar rente. Sim, pode se servir de aliterações (esse jogo de palavras com terminações iguais repetidamente que fiz), metonímias (substituir um termo por outro, como ao invés de ouvir devolva-me, eu diga, vou ouvir Adriana), catacrese (substituição do verdadeiro nome de algo por outro que não lhe é característico, como o pé da mesa, o dente de alho) e sinestesia (usar de um sentido pra descrever o que não lhe cabe, como "sentir com os olhos", "ver a cor da música"). Com todos esses recursos, que eu confesso, gosto muito de ouvir Skank, por que encontro neles, e claro na Adriana Calcanhoto, não bastante não ouvir Bob Dylan, não se pode ouvir Adriana, Marisa, Bethânia, Gal Costa, Clara Nunes! Não, existe uma inovação, algo magnífico que bateram no liquidificador que vocês devem ouvir, gente! Assim como não há contentamento em ouvir Madonna, Michael Jackson, David Bowie ou Roisin Murphy, por exemplo, inventaram Lady Gaga, e a intertextualidade dela com estes artistas precedentes é obviamente descartável. As musas pop de hoje são muito mais confiantes, decididas, elas colocam os pés abruptamente sobre uma cadeira com muito mais ênfase! Beyoncé faz movimentos bruscos de pescoço de um lado pro outro com muito mais imposição! A imposição de uma negra americana re-sig-na-da!

Que se deva ouvir só os clássico então? Tudo que é novo é chato? Ué, mas quem disse que é novo? Por certo é chato. Isso é inegável.

Eu tenho a mais densa preguiça de ouvir o que todos estão ouvindo. Eu, aliás, começo achar intrusão certas recomendações, eu não recomendo minhas bandas a todo mundo. Elas são só minhas, eu as achei! Vá procurar as suas! Síndrome do underground? Não, se ta tocando David Bowie na novela, eu to pouquíssimo preocupado, eu tenho uma síndrome de indivualidade, isso sim. Isso é outro assunto. O que eu dizia mesmo era sobre a diversidade de gosto de vocês. Que ouvem coisas iguaizinhas, e ainda recomendam que os outros também ouçam, quando eles tem um ouvido pouco menos apurado, e não conseguem diferenciar, como vocês, as nuances diversas destas músicas bobildas dessas folk babies. Que ouvem Mallu, mas não ouvem Dylan. Era isso, não? Ou estou ficando velha e louca?

Nenhum comentário:

Finais são bençãos ambivalentes.