quarta-feira, 25 de junho de 2014

30 anos da morte de Michel Foucault

Da exposição "Imaginação no poder" de Gérard Fromanger

   25 de junho de 1984 – a exatos trinta anos atrás o mundo perdia mais um maluco, pervertido e supervalorizado por teorias facilmente refutáveis, dado manipulação e erros sobre fatos históricos que usava a seu bel prazer. E que maluco! Como diz a corruptela da música do Cazuza “meus heróis morreram de AIDS”; estou ciente de toda critica que se faz acerca da vida e do pensamento de Michel Foucault. Tão “fã” que sou, isso só reforma minha admiração, sua vida é um ato invejável, de experimentação e ousadia em todos os sentidos, contra argumentações a suas teses morrem de imediato ao ler suas obras. Não se responde uma critica a Foucault, parece que ele mesmo já o fez, basta lê-lo. E para criticar basta não fazê-lo, ou não fazê-lo direito.   


   Aos 57 ele nos deixou com três volumes da História da Sexualidade, que constariam de seis volumes! Ficamos legados a mudança de estilo nos dois últimos volumes e saber que o próximo se chamaria Confissões da carne.

   “As últimas notícias de Foucault eram más, a minha mulher soubera na spera, junto dos médicos do hospital de la Salpêtriere, que já não sabiam o que fazer. Tendo saído de Paris, eu ia na auto-estrada, quando vi que estava a ser ultrapassado por um carro maciço e potente que seguia a alta velocidade, era verde, e a traseira rectangular tinha uma forma inabitual. No momento em que passou por mim, reconheci Foucault no lugar do condutor que voltou vivamente para mim o seu perfil pontiagudo e me sorriu com os seus lábios, finos. Carreguei no acelerador para o apanhar, mas retirei imediatamente o pé, tendo compreendido o carácter alucinatório desta visão, porque uma alucinação não se confunde com uma verdadeira percepção, é índex sui; compreendera também a alegoria: Foucault ia para onde iremos todos e ultrapassava-me tranquilamente em matéria de intelincia. O carro desapareceu ao longe ou deixou de existir, não sei. Isto tudo terá durado meio minuto, no máximo. Quando contei a coisa a Passeron, ele fez-me notar aquilo que eu não compreendera: a traseira singular do carro era a de um carro mortuário. - Alucinação ou sonho acordado? A visão possuía o engenho alegórico dos sonhos próximos do acordar, quando o pensamento está meio desperto.” Conta Paul Vayne.

   Alguns dias após a sua morte, centenas de amigos e admiradores aglomeraram-se no pátio em frente à capela mortuária do hospital para testemunhar a remoção de seu caixão e lhe prestar suas últimas homenagens. A multidão silenciou quando o velho amigo de Foucault, o eminente filósofo Gilles Deleuze, subiu num pequeno caixote num canto do pátio. Com uma voz quase inaudível e tremendo de tristeza, ele começou a ler os parágrafos do prefácio ao segundo volume da História da sexualidade:
  “Quanto à minha motivação, ela foi muito simples; eu gostaria que para alguns ela bastasse por si só. Foi a curiosidade- o único tipo de curiosidade, em todo caso, que merece ser exercido com algum grau de obstinação: não a que busca assimilar o que é apropriado para conhecermos, mas aquela que permite nos libertarmos de nós mesmos. Afinal, qual seria o valor da paixão pelo saber se ela resultasse apenas numa certa soma de erudição, sem permitir ao conhecedor, de um modo ou de outro e na medida do possível, libertar-se de si próprio? Há ocasiões na vida em que a questão de saber se é possível pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é absolutamente imprescindível se quisermos continuar olhando e refletindo de alguma maneira. Podem dizer, talvez, que seria melhor deixarmos essa peleja com nós mesmos nos bastidores; ou, na melhor das hiteses, que ela poderia fazer parte daqueles exercios preliminares que são esquecidos assim que serviram à sua finalidade. Nesse caso, porém, o que é a filosofia hoje - quero dizer, a atividade filosófica - senão o trabalho crítico que o pensamento exerce sobre si mesmo? Em que consiste ela senão no esforço para saber como e em que medida pode ser posvel pensar de maneira diferente, em vez de legitimar o que é conhecido? Há sempre algo ridículo no discurso filosófico quando este tenta, a partir de fora, impor-se aos outros, dizer-lhes onde está sua verdade e como encontrá-la, ou quando os acusa na linguagem da positividadingênua. Mas ele está habilitado a explorar o que poderia ser mudado em seu próprio pensamento atras da ptica de um saber que lhe é estranho. O "ensaio"- que deveria ser compreendido como a prova ou teste pelo qual sofrem-se mudanças no jogo da verdade, c não como a apropriação simplista de outrem para fins de comunicação - é a substância viva da filosofia, ao menos se admitirmos que filosofia ainda é o que foi no passado, ou seja., uma "ascese", askesis, um exercício de si mesmo na atividade do pensamento. Os estudos que se seguem, como os outros que fiz anteriormente, são estudos de '' história" em razão do domínio com que lidam e das referências a que recorrem; mas não são o trabalho de um "historiador". O que não significa que resumem ou sintetizam o trabalho feito por outros. Considerados do ponto de vista de sua "pragmática", eles são o registro de um exercício longo e experimental que precisou ser revisto e corrigido várias vezes. Foi um exercício filofico. O objetivo era aprender em que medida o esforço para se pensar a própria história pode libertar o pensamento do que ele pensa silenciosamente, e então capacitá-lo a pensar de maneira diferente."

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Finais são bençãos ambivalentes.