terça-feira, 10 de novembro de 2009

Deus

"Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós! Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós! Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, daí-nos a paz!”

Palavras com sentido na boca de um demente, vazias na boca de um poeta! Um rogar sem esperança, um balbuciar desesperado, que não espera nada.
Sempre em desespero eu me vejo implorando não a essa força concentrável e admirável! Mas a todas que existirem no universo e que possam fazer algo por nós. Mas... no mesmo segundo eu me conformo com essa solidão. Certamente existe muito mais além de nós, mas estamos todos concentrados em existir... não podemos sempre estar olhando uns pelos outros...
Por isso, essas palavras, serão sempre vazias, nossas súplicas vazia à um deus tão ocupado. Pense só, depois que desbancarem todos aqueles panteões... imagine só que deus ocupado, é preciso muita onipresença. Para manter sempre as células, os elétrons e todos os microorganismos em constante manutenção. Para trilhar nossos caminhos, para reescrever tudo em seu livro, a cada prece atendida. E quando essa prece envolve apenas um requisitante pedindo alteração nas leis físicas do universo, apenas em seu bel prazer, Deus se mostra tão ocupado que não manda a recusa do pedido oficializada. Pouco responde, aliás, sem ser por sinais vagos. Nem um sms, nem um email, nada. E, ah, que mente concentrada em elaborar testes exaustivos de fidelidade! Empobrecendo os pobres, pra testar suas forças! Adoecendo os adoentados, matando alguns, curando outros. Ouvindo sonâmbulos em rezas incessáveis, quem sabe eles pensem que podem vencer Deus pelo cansaço! Trazendo chuva ou sol, não deixando você se acidentar, ou perder aquele ônibus, ou arranjar um emprego, ou te arrumar dinheiro, ou trazer seu amor de volta. E ainda continuar a se preocupar com a manutenção daqueles pequenos microorganismos.
No segundo seguinte, depois de implorar, eu entendo, que se deus existe, colocou tudo no automático, e mesmo um pedido desesperado em duas vias, com firma reconhecida, não vai adiantar pra alterar as coisas.
Sós, sem ter quem nos ajudar, nós caminhamos como cegos no castelo. Mas também não há a quem culpar, e isso é triste, mas é belo.
Deus não compra chiclete nos faróis; Deus não dá caixinha ao garçom ou ao frentista; não compra língua de sinais dos surdos-mudos; não compra cartão dos artistas independentes nos bares; não ajuda velhinhas a atravessar a rua; não ajuda pessoas na rodoviária a voltar pra casa; não dá carona na estrada; não facilita troco no caixa; não compra rifa apenas por ação entre amigos; não avisa quando não pode ir ao dentista; não leva os filmes de volta à locadora dentro do horário; não cede lugar no ônibus, muito menos em filas; nunca avisa nada ao porteiro; não fecha a tampa da privada; não dá cigarro; não empresta dinheiro, livros, cds nem nada; não deixa colarem da prova dele... e ainda por cima não desliga o celular no teatro! Ele está muito ensimesmado pra reparar no que pedimos, mesmo que seja pouco. Nós o inflamos e o deixamos tão grande e egoísta que ele mesmo... esquece de ser humano com seus filhos.
Deus na verdade é aquele lugar vago à mesa; do seu lado no ônibus, então você pode estender os pés ao menos; aquela cabeça recortada na revista; aquele lugar do convidado que faltou na entrevista na TV; aquele quarto vazio com móveis empoeirando;
Deus é solidão, é distância, é egoísmo, é desespero, desesperança, tristeza, magoa... sinceramente fico muito contente... que ele não exista! =)

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Finais são bençãos ambivalentes.